Comprar uma casa com recurso a crédito exige mais do que encontrar uma prestação mensal comportável. É necessário avaliar a estabilidade dos rendimentos, o dinheiro disponível para a entrada e os custos da escritura, comparar propostas de vários bancos e perceber o impacto dos seguros ao longo do contrato.
Este guia apresenta um percurso prático, desde a preparação financeira até à contratação do empréstimo e dos seguros associados.
1. Comece pelo orçamento realista
O primeiro passo é determinar quanto pode pagar sem comprometer despesas essenciais, poupança e imprevistos. A prestação do crédito não deve ser analisada isoladamente: some seguros, condomínio, impostos, manutenção, energia e eventuais obras.
Faça três contas:
- Quanto dinheiro tem disponível para a entrada e custos iniciais.
- Qual é a prestação mensal confortável num cenário de subida da taxa de juro.
- Quanto deve permanecer como fundo de emergência depois da compra.
O Banco de Portugal acompanha a aplicação das regras macroprudenciais relativas ao crédito à habitação, incluindo limites relacionados com o rácio entre o financiamento e o valor do imóvel e com a taxa de esforço. Estes limites não substituem a avaliação individual feita pelo banco.
Zona de prudência Exemplo de planeamento, não é um limite legal universalTaxa de esforço de referência
A taxa de esforço é uma medida de planeamento. Em termos simples, compara as prestações mensais de crédito com o rendimento líquido mensal do agregado. Se já tem outros empréstimos, cartões com pagamentos faseados ou responsabilidades como fiador, esses encargos podem influenciar a análise.
2. Reúna os documentos antes de pedir propostas
Ter a documentação preparada acelera a pré-análise e permite obter respostas mais comparáveis. Normalmente, podem ser pedidos documentos de identificação, comprovativos de rendimentos, declarações fiscais, recibos de vencimento, extratos bancários e informação sobre créditos existentes.
A lista concreta depende do banco e do perfil do cliente. Trabalhadores independentes, empresários ou pessoas com rendimentos variáveis podem ter de apresentar elementos adicionais.
Documentos a preparar
- Cartão de cidadão ou documento de identificação válido
- Declaração de IRS e respetiva nota de liquidação
- Recibos de vencimento ou comprovativos de rendimentos
- Extratos bancários e informação sobre créditos existentes
- Dados do imóvel, quando já estiver identificado
3. Peça uma pré-aprovação, mas não a trate como aprovação final
A pré-aprovação é uma indicação preliminar do montante que poderá ser financiado, com base nos rendimentos, encargos e informação fornecida. Pode ajudar a definir um preço máximo para a pesquisa e reduzir o risco de fazer uma proposta por uma casa que depois não consegue financiar.
No entanto, a decisão final depende de vários elementos: avaliação do imóvel, confirmação dos documentos, análise jurídica, situação profissional e condições de mercado no momento da contratação.
Peça que a pré-aprovação indique, tanto quanto possível:
- montante máximo estimado;
- prazo considerado;
- tipo de taxa, fixa, variável ou mista;
- spread ou margem aplicável;
- produtos associados;
- validade da simulação;
- custos iniciais previsíveis.
4. Compare a proposta completa, não apenas o spread
O spread é apenas uma componente da taxa de juro nos contratos de taxa variável ou mista. Para comparar propostas, observe a TAN, a TAEG, o MTIC, o prazo, o regime de taxa, as comissões, os custos dos seguros e os produtos exigidos para obter determinada bonificação.
A TAEG incorpora vários custos do crédito e é particularmente útil para comparar propostas com estrutura semelhante. O MTIC mostra o montante total que será pago ao longo do contrato, segundo as condições e pressupostos apresentados.
| Elemento | O que deve esclarecer |
|---|---|
| TAN | Qual é a taxa nominal aplicada ao empréstimo? |
| TAEG | Que custos anuais estão refletidos na proposta? |
| MTIC | Quanto será pago no total segundo a simulação? |
| Prazo | Qual é o efeito de prolongar ou encurtar o contrato? |
| Taxa | A prestação pode variar? Durante quanto tempo? |
| Comissões | Existem custos de abertura, avaliação ou amortização? |
| Produtos associados | A bonificação depende de domiciliação ou outros serviços? |
Como comparar duas propostas
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1
Recolha a documentação pré-contratualPeça a FINE, a ficha de informação normalizada europeia, para cada proposta.
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2
Uniformize os pressupostosCompare o mesmo montante, prazo, entrada e tipo de taxa.
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3
Some todos os custosInclua seguros, comissões, impostos, avaliação e produtos associados.
-
4
Teste cenáriosVerifique como muda a prestação se a taxa subir ou se amortizar antecipadamente.
5. Escolha entre taxa fixa, variável ou mista
Na taxa fixa, a prestação de capital e juros mantém-se estável durante o período contratado, embora possam existir alterações noutros encargos. Na taxa variável, a prestação acompanha um indexante, normalmente uma Euribor, acrescido do spread. Na taxa mista, existe um período inicial de taxa fixa e outro posterior de taxa variável.
A escolha depende da previsibilidade que valoriza, do prazo em que espera manter o empréstimo e da sua capacidade para suportar alterações futuras. Não é prudente escolher uma taxa apenas porque apresenta a prestação inicial mais baixa.
Qual é o teu caso?
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SePrecisas de máxima previsibilidade no orçamento mensal.EntãoCompara propostas de taxa fixa ou mista e confirma o custo total.
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SeTens margem financeira para aceitar oscilações.EntãoAnalisa a taxa variável, incluindo simulações com indexante mais elevado.
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SeEsperas vender ou transferir o crédito relativamente cedo.EntãoCompara com atenção as comissões e regras de reembolso antecipado.
6. Calcule a entrada e os custos de compra
Além do capital próprio necessário para a entrada, reserve dinheiro para impostos e despesas. Dependendo do caso, podem existir IMT, Imposto do Selo, escritura ou documento equivalente, registos, avaliação bancária, comissões e custos de intermediários.
O IMT e o Imposto do Selo dependem do tipo de imóvel, localização, finalidade, valor e outros elementos. A Autoridade Tributária disponibiliza informação e simuladores no Portal das Finanças. Confirme os valores aplicáveis antes de assinar o contrato-promessa.
Como regra de planeamento, organize o dinheiro disponível em três blocos:
Esta repartição é apenas um exemplo de organização. A proporção adequada depende do preço, do financiamento, da idade, dos rendimentos e das despesas previsíveis. Não esgote toda a liquidez na entrada.
7. Entenda os seguros associados
O seguro de vida é frequentemente exigido pelo banco como garantia adicional, sobretudo para cobrir morte ou invalidez dos mutuários. O seguro multirriscos habitação protege o imóvel contra riscos previstos na apólice e pode ser obrigatório quando existe financiamento hipotecário.
Leia a apólice e confirme:
- capitais seguros e respetiva atualização;
- coberturas de morte e invalidez;
- exclusões e períodos de carência;
- beneficiário do seguro de vida;
- franquias e limites de indemnização;
- forma de pagamento do prémio;
- consequências de cancelar produtos associados.
O banco pode propor seguros, mas deve ser possível conhecer as condições exigidas e comparar alternativas quando a legislação e o contrato o permitam. Uma apólice mais barata pode oferecer coberturas inferiores, pelo que o preço não deve ser o único critério.
Mitos comuns
8. Antes de assinar
Leia a FINE, a minuta do contrato e as condições dos seguros sem pressa. Confirme a data de validade da proposta, os prazos para aceitar, a obrigação de contratar produtos adicionais e as regras de reembolso antecipado.
Guarde simulações, mensagens e documentos entregues. Se algum ponto não for claro, peça uma explicação por escrito. Para informação sobre regras de crédito, consulte o Banco de Portugal. Para impostos e obrigações fiscais, confirme no Portal das Finanças.
Posso mudar de banco depois de contratar o crédito?+
Devo escolher o prazo mais longo para reduzir a prestação?+
O que devo fazer se os rendimentos forem variáveis?+
O financiamento mais adequado não é necessariamente o que apresenta a menor prestação no primeiro mês. É o que continua a ser suportável perante alterações de juros, despesas inesperadas e mudanças nos rendimentos. Uma preparação documental cuidadosa, uma comparação com os mesmos pressupostos e uma leitura atenta dos seguros reduzem surpresas durante a vida do empréstimo.